LULA FICA TRISTE PORQUE EUA
CLASSIFICARAM PCC E CV COMO INSTITUIÇÕES TERRORISTAS:
Nesta sexta-feira, 29 de maio, o Presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, do Partido dos Trabalhadores, declarou que não consentirá
que o Brasil seja tido por “republiqueta”, ao comentar a decisão dos
Estados Unidos de designar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando
da Capital como entidades terroristas. “Não toleramos ser tratados
quais moleques. Não toleramos ser tratados como republiqueta”,
afirmou Lula durante solenidade realizada em Sergipe.
O
pronunciamento harmonizou-se com nota igualmente divulgada pelo
Governo Federal na mesma data. O documento sublinha que “a soberania
nacional é inegociável” e que “quem define como o crime é
classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com
suas instituições, suas leis e suas forças de segurança”. No
discurso, o Presidente manifestou ainda sentir-se “triste” com
a deliberação do governo norte-americano. Asseverou haver entregue
ao Presidente Donald Trump, em visita à Casa Branca no início do
mês, documento versando sobre providências para o combate ao crime
organizado.
O Governo brasileiro sempre se opôs à classificação
adotada por Washington, sustentando que esta poderia pôr em risco a
soberania nacional ao franquear espaço a ações militares dos Estados
Unidos sob pretexto de combater o terrorismo. Lula ponderou que o PCC
e o CV “são terroristas para as comunidades brasileiras”, mas “não
são os terroristas que o senhor Trump deseja”. Acrescentou: “Eles
incomodam as famílias, o bairro, a cidade, roubam tudo quanto é
direito do povo, o direito do povo viver livremente. Portanto, são
terroristas. E havemos de combatê-los aqui dentro”.
A nota oficial
argumenta ainda que a violência praticada pelas facções “não se pode
confundir com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e
religiosos do terrorismo internacional”. No palanque em Sergipe, o
Presidente comentou também o encontro ocorrido três dias antes entre
o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, do PL do
Rio de Janeiro, e o Presidente Trump. Na audiência, Flávio defendeu
que o governo norte-americano classificasse as facções como
terroristas, bandeira sustentada há mais de um ano por partidários
do bolsonarismo, inclusive por Eduardo Bolsonaro, filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente residente em solo
americano.
Dois dias após a visita de Flávio, o Secretário de Estado
americano, Marco Rubio, anunciou a classificação dos grupos
criminosos como terroristas.“O senhor Rubio não esteve lá, na
reunião comigo, possivelmente porque estivesse preparado para
auxiliar o filho de um bolsonarista que é candidato à eleição neste
país, que não tem pejo de trair a nossa pátria, de ir aos Estados
Unidos pedir intervenção americana no Brasil”, declarou o Chefe do
Executivo. A nota do Governo igualmente faz menção a “traidores”. “A
segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada
politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos.
Diz o texto. “É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção
estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou
tantos danos ao nosso país. ”Lula sustentou que o combate ao crime
organizado pelos Estados Unidos deveria dar-se pela entrega “dos
terroristas brasileiros” que lá se encontram. “Sabe as armas
importadas que são contrabandeadas para o Brasil? Vêm dos Estados
Unidos”, disse, ao realçar a aprovação do projeto de lei Antifacção. Por
fim, o Presidente mencionou a situação de Alexandre Ramagem,
ex-chefe da inteligência brasileira durante o governo Bolsonaro, que
se evadiu para os Estados Unidos, e de Ricardo Magro, empresário
controlador do Grupo Refit, suspeito de vínculos com o PCC e
apontado como o maior sonegador de impostos do Brasil.
Após a
repercussão do discurso em Sergipe, Flávio Bolsonaro divulgou
gravação em que assiste à fala do Presidente. Criticou a expressão
“nossos criminosos”, empregada por Lula ao afirmar que Trump não
deveria imiscuir-se na política de segurança do país. “A soberania
que defendemos é a do povo brasileiro, das 50 milhões de pessoas que
vivem sob o domínio desses narcoterroristas”, disse o senador,
acusando o Presidente de “defender esses marginais em vez de
defender as vítimas deles”. A discussão em torno da classificação do
PCC e do CV como terroristas prolongou-se por mais de um ano, com
avanços e recuos.
Do lado do Governo brasileiro, além do argumento
relativo ao risco à soberania, alegava-se que a medida contrariaria
a legislação pátria. De outra parte, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro defendia publicamente a medida há mais de um ano,
apontando a posição contrária do Governo Lula como suposta
demonstração de conivência da administração petista com o crime
organizado. O Governo brasileiro jamais considerou o assunto
encerrado na administração Trump, dada a imprevisibilidade do
Presidente norte-americano, segundo assessores de Lula.
Durante sua estada nos Estados
Unidos, Flávio afirmou haver defendido, perante toda a equipe de Trump, que o país adotasse a medida contra as organizações
criminosas brasileiras. Antes da viagem do senador, interlocutores do
Presidente Lula afirmavam, em caráter reservado, que o Governo
interpretaria um anúncio da administração Trump considerado negativo
como possível ingerência no processo eleitoral do Brasil, e que
responderia à semelhança do ocorrido durante o tarifaço de 2025.
A idéia de impor sanções contra organizações criminosas brasileiras,
tratando o PCC e o CV como entidades terroristas, era estudada pelo
governo norte-americano há vários anos.