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Jornal Rede Metrópole Litoral: 22/01/2026          

Fotos: Reprodução Internet

 

QUAL A MISSÃO REAL DO NAVIO CHINÊS SILK ROAD ARK?:



 

 

     A passagem do navio-hospital chinês pelo porto do Rio de Janeiro, entre os dias 8 e 15 deste mês, deixou uma série de questões sobre por que a embarcação ficou atracada no Brasil, se não poderia oferecer atendimento médico à população. Oficialmente, o navio ofertou “intercâmbio de conhecimentos, treinamentos conjuntos e atividades culturais”, mas militares brasileiros teriam suspeitado de que seria um veículo de tecnologia espiã.

     De acordo com o Ministério da Relações Exteriores da China, o navio Silk Road Ark, de 10 mil toneladas, passa pela 11ª edição da Missão Harmony, que viaja por diversos países ao longo de 220 dias. O Brasil foi a primeira nação da América do Sul a ser visitada, logo após a embarcação sair do Caribe (o destino anterior teria sido Barbados). Fontes ligadas às forças armadas brasileiras relataram, sob sigilo, que a embarcação teria uma robusta quantidade de equipamentos de vigilância, como antenas, sensores e radares.

     Os médicos do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) foram impedidos de vistoriar o navio-hospital na terça-feira (13/1), tendo sido também intimidados por militares ao tentar filmar a situação. O conselho queria verificar se estava havendo algum atendimento médico no navio sem autorização, já que a legislação brasileira impede que médicos estrangeiros exerçam a profissão no Brasil sem passar pelo processo do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida).

     O Cremerj notificou a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e a Marinha do Brasil para uma fiscalização sobre a atuação do navio-hospital chinês. “A fiscalização do ato médico é um dever legal e se aplica a qualquer atendimento realizado em território nacional, inclusive em missões humanitárias ou de cooperação internacional”, afirmou o conselho através de postagem nas redes sociais. “Estamos aqui para defender a medicina brasileira, a excelência dos médicos brasileiros”, garantiu Raphael Câmara, conselheiro federal de medicina pelo Rio.

     A Secretaria de Saúde do Estado garantiu que não foram realizados atendimentos médicos no navio-hospital, e que os comandantes da embarcação foram recebidos pelo governo do estado no dia que atracou no Rio de Janeiro. O órgão destacou ainda que a visita da embarcação não foi uma iniciativa do estado carioca e que ela ocorreu em decorrência de um pedido da Marinha Chinesa à Marinha do Brasil, o que é “praxe diante de pedidos de paradas logísticas, sendo a Marinha do Brasil igualmente atendida quando suas naus necessitam atracar em portos estrangeiros”.

     Diversos grupos fizeram visitas ao navio-hospital durante os sete dias em que esteve atracado no píer Mauá, no Centro do Rio de Janeiro, especialmente jornalistas e representantes consulares. Entre eles, esteve a Associação de Estudantes de Seminários na China (AESC). A presidente da organização, Claudia Januzzi, disse que as pessoas que puderam entrar no navio ficaram impressionadas com a qualidade do espaço. “Esse navio é novo, tem três anos, e as pessoas ficam impressionadas com o investimento que o governo chinês faz para possibilitar atendimento à população”, disse ela num vídeo publicado pela associação. Segundo ela, o navio-hospital possui capacidade para realizar 60 cirurgias por dia em diferentes especialidades, além de procedimentos de baixa complexidade.

     Segundo Adriano Gianturco, professor de relações internacionais no IBMEC, a grande questão nessa história é a falta de transparência com que os governos chinês e brasileiro lidaram com as dúvidas que surgiram a partir da missão. “O que não é normal é não ter explicações públicas, transparentes, completas e prévias sobre a chegada do navio. Num país democrático, todo mundo tem essas explicações. E não é normal que não tenha tido uma investigação de observadores independentes sobre o caso”.

     A presença do Silk Road Ark no Brasil ocorreu em meio ao acirramento da disputa naval entre China e Estados Unidos. Pequim já tem — ou está prestes a ter — a maior frota naval do mundo e domina grande parte da construção naval e da frota mercante global, responsável por cerca de 90% do transporte marítimo internacional. Nos Estados Unidos, estaleiros e construtores navais acionaram o governo com base na Lei de Comércio de 1974, acusando a China de práticas desleais, subsídios estatais e dumping — venda a preços artificialmente baixos — para dominar o setor.

     Esse cenário impulsionou o discurso de Donald Trump sobre a necessidade de revitalizar a Marinha americana. O presidente dos Estados Unidos defende a criação de uma nova classe de encouraçados lançadores de mísseis, como parte de um plano para recuperar a supremacia naval dos EUA. A autorização para a entrada do navio foi concedida em 13 de novembro pelo governo federal e publicada no Diário Oficial da União no dia 18 daquele mês, conforme o Estado-Maior da Armada, órgão da Marinha do Brasil. O navio chinês ficou atracado no Rio de Janeiro entre 8 e 15 de janeiro de 2026.

     Pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), navios de Estado gozam de imunidade jurisdicional quando atracados em portos estrangeiros, o que limita inspeções internas sem consentimento do país de bandeira.

     O Silk Road Ark integra a Missão Harmony 2025, a mais longa já realizada pela marinha chinesa, com duração estimada de 220 dias. A operação inclui escalas em países da Oceania, Caribe e América Latina, como México, Jamaica, Peru, Chile e Brasil — primeiro destino sul-americano da missão. A China mantém uma das maiores frotas de navios-hospitais do mundo, freqüentemente utilizados como instrumentos de diplomacia humanitária.

     O Brasil tem histórico de autorizar a entrada de embarcações militares estrangeiras. Em 2023, um navio de pesquisa alemão foi expulso após operar sem autorização em área sensível, o que demonstra que o país reage diante de irregularidades comprovadas.

     A capacidade de uso duplo — servir como hospital e como espião — é o que acendeu o alerta vermelho. A ausência de transparência sobre esses equipamentos gerou apreensão, especialmente porque o Brasil não possui acordos bilaterais de cooperação militar.

 

Fonte: Terra/ O Tempo/ Gazeta do Povo/ Poder 360

 

           

 

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